O ferro é um mineral essencial para o organismo e participa de funções importantes, principalmente relacionadas ao transporte de oxigênio pelo sangue.
Quando a ingestão ou a absorção de ferro não é suficiente, pode ocorrer deficiência do mineral e, em casos mais avançados, anemia por deficiência de ferro.
É nesse contexto que aparece o ferro quelado, uma forma de suplementação que tem ganhado espaço por apresentar características diferentes das formas tradicionais de ferro.
Mas, afinal, para que serve ferro quelado? Ele é melhor do que o sulfato ferroso? Causa menos efeitos colaterais? E quem pode tomar?
O que é ferro quelado?
O ferro quelado é uma forma de ferro em que o mineral está ligado a outra molécula, geralmente um aminoácido. Um dos exemplos mais conhecidos é o bisglicinato ferroso, também chamado de ferro bisglicinato ou ferro glicinato.
A ideia da quelação é formar uma estrutura que pode apresentar características diferentes em relação à absorção e à tolerabilidade gastrointestinal.
Os quelatos de ferro, especialmente o bisglicinato, são estudados há décadas como alternativas às formas tradicionais de suplementação.
Uma revisão publicada no International Journal of Vitamin and Nutrition Research descreve o bisglicinato ferroso como uma das formas de quelato de ferro mais estudadas e utilizadas.
Para que serve o ferro quelado?
O ferro quelado é utilizado para fornecer ferro ao organismo, principalmente quando há necessidade aumentada ou quando a alimentação não é suficiente para atender às necessidades do mineral.
O ferro participa de processos fundamentais, como:
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formação da hemoglobina;
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transporte de oxigênio;
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produção de mioglobina;
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funcionamento de enzimas envolvidas no metabolismo energético;
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desenvolvimento e funcionamento adequado de diferentes tecidos.
Quando existe deficiência de ferro, a reposição do mineral pode ser necessária para recuperar as reservas corporais e, quando presente, corrigir a anemia.
No Brasil, o Ministério da Saúde reconhece a anemia por deficiência de ferro como um importante problema nutricional e possui protocolo específico para diagnóstico, tratamento e acompanhamento da condição.
Qual a diferença entre ferro quelado e ferro comum?
Quando falamos em “ferro comum”, muitas vezes estamos nos referindo aos sais de ferro, como sulfato ferroso, fumarato ferroso ou gluconato ferroso.
Já o ferro quelado está ligado a uma molécula orgânica, como um aminoácido. Essa diferença na estrutura pode influenciar a forma como o mineral é absorvido e como ele é tolerado pelo organismo.
O bisglicinato ferroso, por exemplo, é formado pela ligação do ferro a duas moléculas de glicina.
Isso não significa, porém, que todo ferro quelado seja automaticamente superior a qualquer outra forma de ferro.
A escolha depende de fatores como necessidade de suplementação, quantidade de ferro elementar, tolerabilidade, alimentação, exames e orientação profissional.
Ferro quelado é melhor que sulfato ferroso?
Essa é uma das dúvidas mais comuns. A resposta é: depende da situação.
O sulfato ferroso é uma forma tradicional de suplementação e continua sendo utilizado no tratamento e na prevenção da deficiência de ferro.
Por outro lado, o bisglicinato ferroso apresenta características que podem favorecer a tolerabilidade gastrointestinal em algumas pessoas.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2023 avaliou 17 ensaios clínicos randomizados envolvendo o bisglicinato ferroso.
Entre gestantes, a suplementação com essa forma de ferro esteve associada a maiores concentrações de hemoglobina e a uma menor ocorrência de efeitos gastrointestinais quando comparada a outras formas de ferro.
Os autores, entretanto, destacaram que ainda são necessários mais estudos em diferentes populações.
Portanto, não é correto afirmar que o ferro quelado é sempre “melhor”. Ele pode ser uma alternativa interessante em determinadas situações, especialmente quando a tolerabilidade gastrointestinal é uma preocupação.
Ferro quelado dá menos enjoo?
Essa é uma dúvida real, e sim, é possível. Um dos motivos pelos quais o ferro quelado desperta interesse é justamente sua possível melhor tolerabilidade gastrointestinal.
Suplementos de ferro podem causar efeitos como:
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náusea;
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dor ou desconforto abdominal;
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constipação;
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diarreia;
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alteração na aparência das fezes.
Na meta-análise de ensaios clínicos, o bisglicinato ferroso apresentou menor frequência de eventos gastrointestinais em gestantes quando comparado a outras formas de ferro.
Ainda assim, isso não significa que o ferro quelado não possa causar desconforto. A resposta varia de pessoa para pessoa, e a dose também pode influenciar a tolerabilidade.
Ferro quelado é indicado para anemia?
Pode ser utilizado como fonte de ferro, mas a anemia por deficiência de ferro precisa ser diagnosticada e acompanhada adequadamente.
O Ministério da Saúde destaca que a avaliação da anemia não deve se limitar à hemoglobina.
A ferritina, que ajuda a avaliar as reservas de ferro do organismo, também é um marcador importante na investigação da deficiência.
Por isso, sintomas como cansaço, fraqueza ou queda de cabelo, isoladamente, não são suficientes para determinar que uma pessoa precisa tomar ferro.
A causa da deficiência também precisa ser investigada. Perdas de sangue, ingestão insuficiente, aumento das necessidades nutricionais e alterações na absorção estão entre os fatores que podem estar envolvidos.
Ferro quelado ajuda no cansaço?
A relação entre ferro e cansaço está principalmente ligada à deficiência de ferro.
O organismo precisa de ferro para produzir hemoglobina, proteína responsável pelo transporte de oxigênio.
Quando existe deficiência importante, a redução da disponibilidade de ferro pode contribuir para sintomas como fadiga e fraqueza.
Por isso, a suplementação pode ajudar quando esses sintomas estão relacionados à deficiência do mineral.
Mas tomar ferro sem investigar a causa do cansaço não é uma boa estratégia. Cansaço é um sintoma inespecífico e pode estar relacionado a diversas condições.
Ferro quelado engorda?
Não há evidência de que o ferro quelado, por si só, cause ganho de gordura corporal.
O ferro é um micronutriente e não fornece calorias significativas. Portanto, seu papel está relacionado principalmente às funções metabólicas e à formação de componentes essenciais do organismo, e não ao aumento de gordura corporal.
Se houver alteração de peso durante o uso de um suplemento, é importante considerar outros fatores, como alimentação, rotina, medicamentos e condições de saúde.
Ferro quelado pode ser tomado todos os dias?
A frequência depende da quantidade de ferro fornecida pelo produto e do objetivo da suplementação.
Não existe uma recomendação universal de que toda pessoa deva tomar ferro diariamente. A necessidade varia conforme idade, sexo, fase da vida, alimentação e presença ou ausência de deficiência.
Além disso, suplementos diferentes podem fornecer quantidades muito distintas de ferro elementar, que é a quantidade de ferro efetivamente presente na formulação.
Por isso, mais importante do que observar apenas o nome “ferro quelado” é verificar a composição do produto e a quantidade de ferro fornecida por porção.
Como tomar ferro quelado?
A forma de uso deve seguir as orientações do fabricante e, quando houver indicação para tratar uma deficiência, a recomendação de um profissional de saúde.
A absorção do ferro pode ser influenciada por outros componentes da alimentação e por diferentes substâncias presentes no trato gastrointestinal.
Por isso, dependendo da formulação e da situação individual, o profissional pode orientar o melhor momento para consumir o suplemento.
Também é importante evitar aumentar a dose por conta própria. Mais ferro não significa necessariamente mais benefício.
Ferro quelado pode ser tomado com vitamina C?
A vitamina C pode favorecer a absorção do ferro não heme, especialmente o ferro presente nos alimentos de origem vegetal.
Entretanto, isso não significa que seja obrigatório tomar todo suplemento de ferro junto com vitamina C.
A necessidade de associar ou não os dois depende da forma do suplemento, da alimentação e do objetivo da suplementação. Por isso, não é necessário transformar a combinação em uma regra universal.
Quem precisa de mais atenção ao consumo de ferro?
Algumas fases da vida estão associadas a necessidades maiores de ferro.
Entre os grupos que merecem atenção estão:
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gestantes;
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crianças;
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adolescentes;
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mulheres em idade fértil;
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pessoas com perdas de sangue;
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indivíduos com dietas com baixa ingestão de ferro;
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pessoas com condições que prejudicam a absorção do mineral.
O próprio Ministério da Saúde possui estratégias específicas de prevenção da anemia por deficiência de ferro para determinados grupos, incluindo crianças pequenas e gestantes.
Isso não significa que todas as pessoas desses grupos tenham deficiência, mas que a necessidade de ferro pode ser maior em determinadas fases da vida.
Ferro quelado pode causar efeitos colaterais?
Apesar de algumas formas queladas apresentarem boa tolerabilidade em estudos, suplementos de ferro ainda podem causar efeitos gastrointestinais.
Os mais conhecidos incluem:
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náusea;
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desconforto abdominal;
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constipação;
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diarreia;
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escurecimento das fezes.
A intensidade pode variar de acordo com a forma de ferro, dose e características individuais.
Em caso de sintomas persistentes ou intensos, é importante conversar com um profissional de saúde.
Existe risco em tomar ferro sem necessidade?
Sim. O ferro é essencial, mas isso não significa que a suplementação seja indicada para todas as pessoas.
A deficiência deve ser investigada e, quando identificada, sua causa também deve ser considerada.
O protocolo do Ministério da Saúde para anemia por deficiência de ferro estabelece critérios para diagnóstico, tratamento e acompanhamento justamente porque a reposição deve ser feita de maneira adequada.
Por isso, não é recomendado utilizar doses elevadas de ferro por conta própria.
Ferro quelado: o que podemos concluir?
O ferro quelado, especialmente o bisglicinato ferroso, é uma forma de suplementação desenvolvida para fornecer ferro ao organismo e que apresenta evidências de boa absorção e tolerabilidade em determinadas situações.
Estudos indicam que o bisglicinato pode apresentar vantagens em relação a algumas formas tradicionais de ferro, principalmente no que diz respeito aos efeitos gastrointestinais.
Entretanto, os resultados não significam que essa forma seja sempre superior ou que seja indicada para todas as pessoas.
O ponto principal é que a suplementação de ferro deve fazer sentido dentro das necessidades individuais.
Quando existe suspeita de deficiência, exames como hemograma e ferritina podem ajudar na investigação.
Assim, entender para que serve o ferro quelado é também entender que a escolha da forma do suplemento é apenas uma parte da estratégia. A quantidade adequada, a causa da deficiência e a orientação profissional são igualmente importantes.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Anemia por deficiência de ferro — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas. Atualizado em 2025.
BRASIL. Ministério da Saúde. Deficiência de Ferro. NutriSUS.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 1.977, de 12 de setembro de 2014 — Programa Nacional de Suplementação de Ferro.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 1.247, de 10 de novembro de 2014 — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Anemia por Deficiência de Ferro.
ALVES, M. et al. The effects of oral ferrous bisglycinate supplementation on hemoglobin and ferritin concentrations in adults and children: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Journal of Nutrition, 2023.
HERTRAMPF, E.; OLIVARES, M. Iron amino acid chelates. International Journal of Vitamin and Nutrition Research, 2004.
PINEDA, O.; ASHMEAD, H. D. Effectiveness of treatment of iron-deficiency anemia in infants and young children with ferrous bis-glycinate chelate. Nutrition, 2001.
Escrito por: Pedro Ferrão
Nutricionista Clínico | CRN 3 88410
Nutricionista com atuação voltada à saúde, bem-estar e suplementação, com foco em orientação baseada em ciência e educação nutricional.